- Estes transtornos dissociativos têm subjacentes problemas ou disfunções da memória, da identidade, da perceção, do comportamento e do autoconceito.
- Os sintomas próprios das perturbações dissociativas têm o potencial de interferir fortemente com todas as áreas do funcionamento mental.
- Um dos mecanismos mentais de proteção dos seres humanos é justamente a capacidade de se dissociarem de experiências traumáticas no momento em que estas acontecem, como por exemplo num acidente de viação ou quando se é vítima de crime ou agressão.
O Transtorno Dissociativo de Identidade, incluído na 11.ª versão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial de Saúde (OMS), sob o grupo MB26, relativo aos sintomas ou sinais relativos aos conteúdos do pensamento, e no subgrupo MB26.4, relativo às perturbações da identidade, é uma de três perturbações dissociativas.
Estes transtornos dissociativos têm subjacentes problemas ou disfunções da memória, da identidade, da perceção, do comportamento e do autoconceito. Os sintomas próprios das perturbações dissociativas têm o potencial de interferir fortemente com todas as áreas do funcionamento mental. Estas perturbações são assim de três tipos:
- Transtorno Dissociativo de Identidade
- Amnésia Dissociativa
- Transtorno de Despersonalização/Desrealização
O fator dissociativo está relacionado com uma separação entre os pensamentos, as memórias, os sentimentos, as ações e comportamentos ou a perceção de si próprio. Alguns exemplos normais de dissociação que todas as pessoas experienciam são o “sonhar acordado”, a sensação de conduzir numa estrada bem conhecida e chegar ao destino sem memória do percurso, “perder-se” num livro ou filme, bem como todas as situações em que há uma certa perda de contacto por parte da pessoa com o seu contexto envolvente.
Um dos mecanismos mentais de proteção dos seres humanos é justamente a capacidade de se dissociarem de experiências traumáticas no momento em que estas acontecem, como por exemplo num acidente de viação ou quando se é vítima de crime ou agressão. Este “desligar da realidade” permite suportar a experiência traumática, que de outro modo seria insuportável, pois as sensações de ameaça, medo ou dor seriam avassaladoras para o indivíduo.
Nestas situações, é comum que as pessoas afetadas deixem de recordar os eventos traumáticos, não tendo destes qualquer memória, ainda que os tenham vivenciado física e presencialmente. Esta perda de memória dos eventos é de resto comum em vítimas de acidentes ou calamidades.
Anteriormente designada de “múltiplas personalidades”, a dissociação de personalidade é uma forma mais complexa do transtorno e consiste na presença de duas ou mais personalidades distintas e separadas, as quais determinam os comportamentos do indivíduo.
São relatados casos em que as personalidades possuem o seu próprio sexo, idade, raça e quadros comportamentais distintos entre si. A transição entre as diversas personalidades pode ser imediata ou prolongar-se por vários dias. Todavia, estes estados dissociados não representam personalidades inteiramente maturadas, mas sim uma identidade desarticulada.
Investigação sobre o que causa o transtorno dissociativo de identidade identificou como a maior causa para o surgimento deste transtorno o abuso emocional, físico ou sexual na infância. Assim, a sujeição a episódios recorrentes de maus-tratos psicológicos, físicos ou sexuais, levam a que as crianças desenvolvam tais mecanismos de proteção, sendo que estes são propiciados pela natural tendência das crianças criarem realidades alternativas espontaneamente.
Enquanto estratégia inata de autopreservação, a dissociação constitui assim uma ferramenta mais profunda de adaptação a circunstâncias de stresse elevado, podendo resultar numa verdadeira divisão entre identidades distintas num mesmo indivíduo.
Em algumas situações, o transtorno dissociativo de identidade surge como resultado da experiência de catástrofes naturais, acidentes ou cenários de guerra. O transtorno é assim um mecanismo de distanciamento mental dos indivíduos relativamente à experiência traumática.
Estes mecanismos podem consolidar-se num padrão de funcionamento do indivíduo que persiste na idade adulta, resultando assim num transtorno crónico.
Muita da sintomatologia deste transtorno é também comum em outros tipos de perturbações, como o stresse pós-traumático, ou comportamentos de risco, tais como o abuso de substâncias psicoativas.
Os sintomas de Transtorno Dissociativo de Identidade são assim os seguintes:
- Incapacidade para recordar partes significativas da infância;
- Eventos que o indivíduo não consegue explicar ou deles ter consciência, tais como encontrar-se num local sem memória de ter feito o percurso, ou possuir objetos novos sem memória de os ter adquirido;
- Episódios frequentes de perda de memória ou sensação de “ausência”;
- Recuperação espontânea de memórias de episódios relevantes ou traumáticos;
- Sensação de se estar desligado ou separado do próprio corpo e pensamentos;
- Alucinações auditivas ou visuais, isto é, experiências irreais tais como ouvir vozes a falar com o indivíduo ou dentro da sua cabeça, ou mesmo ver pessoas ou objetos que não existem;
- Experiências de separação do corpo;
- Tentativas de dano autoinfligido ou de suicídio;
- Alterações temporárias da caligrafia;
- Alterações do funcionamento, oscilando entre um estado altamente funcional e um quase dependente de terceiros.
É também habitual que os indivíduos com Transtorno Dissociativo de identidade possuam outros sintomas gerais:
- Estado depressivo e alterações do humor;
- Ansiedade, nervosismo, crises de pânico e fobias em reação a estímulos ou gatilhos;
- Perturbações alimentares;
- Alterações e dificuldades do sono, tais como insónias, pesadelos, terrores noturnos e sonambulismo;
- Dores de cabeça severas ou dores noutras partes do corpo;
- Disfunções sexuais, incluindo a adição sexual e o evitamento.
Como já foi referido, o Transtorno Dissociativo de Identidade pode tornar-se crónico caso não seja tratado. Não obstante, os tratamentos para o Transtorno Dissociativo de Identidade são bastante eficazes, ainda que possam ser assaz prolongados, mas devendo ser levados a cabo por profissionais de saúde mental com especialização neste tipo de problemáticas.
Os portadores de Transtorno Dissociativo de Identidade não tratado podem apresentar dificuldades na gestão dos sintomas, em especial na idade adulta, sendo comuns as situações de abuso de substâncias psicoativas, stresse e alterações do humor.
É prudente que o acompanhamento seja precedido de uma avaliação clínica geral, dado que há patologias orgânicas que podem mimetizar ou ampliar um transtorno mental. Por conseguinte, uma avaliação médica do ponto de vista físico poderá consubstanciar-se num diagnóstico diferencial.
A psicoterapia para tratamento do Transtorno Dissociativo de Identidade é um processo de acompanhamento individual cuja duração pode chegar a vários anos. Consiste num acompanhamento em regime de consultas periódicas, em que o foco da intervenção é a integração das várias personalidades numa personalidade harmoniosa. O processo psicoterapêutico carece de motivação do indivíduo, sem a qual o sucesso terapêutico será muito limitado.
As técnicas envolvidas na psicoterapia individual consistem na exploração dos desencadeadores de sintomas, identificando as suas causas traumáticas originais. O processo desenvolve-se por etapas que poderão englobar o mapeamento das diferentes personalidades ou traços de personalidade, o tratamento das memórias traumáticas na conjunção das várias identidades, e a consolidação da nova personalidade.
A terapia familiar é também comum fazer-se em associação com a psicoterapia individual, mas o foco passa a ser no acompanhamento à família do doente, prestando informação acerca do transtorno, das suas causas, dos seus sintomas, das alterações que podem ocorrer ao longo do tratamento e dos sinais que podem surgir numa situação de recidiva. O envolvimento de familiares pode despertar memórias de eventos traumáticos associados a essas mesmas pessoas, o que pode interferir com a melhoria clínica.
A terapia de grupo consiste na integração do paciente em sessões de grupo com outras pessoas afetadas pelo mesmo transtorno. Esta poderá ser benéfica, ainda que as dinâmicas de grupo sejam de difícil gestão pelo facto de os pacientes poderem alternar pelas diversas personalidades.
Dado que o Transtorno Dissociativo de Identidade não é uma perturbação do organismo nem tão pouco um desequilíbrio químico, não existe neste momento um tratamento farmacológico especificamente direcionado. O uso de medicamentos pode ser indicado para tratamento da sintomatologia ansiosa ou depressiva comum nestes casos, mas não visa curar o transtorno propriamente dito.
A hipnose clínica é uma das possíveis estratégias de intervenção junto de pessoas com Transtorno Dissociativo de Identidade, ainda que haja alguma controvérsia devido à implantação de memórias falsas através de processos de sugestão. A hipnose pode ser útil na rememoração de memórias reprimidas, no tratamento de problemas de controlo dos impulsos, tais como comportamentos autodestrutivos, e ainda na fusão das diferentes personalidades.
O Transtorno Dissociativo de Identidade não é uma condição inata, antes resultando de circunstâncias na vida dos indivíduos às quais a mente se adapta com mecanismos que visam a proteção e a fuga da realidade.
A sintomatologia pode ser muito invasiva e com elevada interferência nas atividades quotidianas, nos relacionamentos e na vida profissional.
Os tratamentos são de base psicoterapêutica, ainda que a intervenção farmacológica possa ajudar a tratar alguns dos sintomas associados. Tais tratamentos são prolongados mas geralmente eficazes.
“Dissociation and dissociative disorders” em https://www.mind.org.uk consultado em abril de 2023;
“Dissociative Disorders”, em https://my.clevelandclinic.org/, consultado em abril de 2023;
Organização Mundial de Saúde, International Classification of Diseases 11th Revision, em https://icd.who.int/ consultado em abril de 2023;
“What Are Dissociative Disorders?” em https://www.psychiatry.org consultado em abril de 2023.
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