A depressão pós-parto é uma síndrome depressiva que afeta cerca de 10 a 15 parturientes em cada 100. Apresenta sintomatologia semelhante à perturbação depressiva, incluindo humor deprimido, e durante cerca de duas semanas.
A depressão pós-parto é relevante, pois dependendo do grau de severidade, a puérpera pode deixar de ter condições para cuidar adequadamente do bebé, inclusive ao nível das tarefas mais fáceis.
A sintomatologia depressiva pode fazer emergir um sentimento de culpa por não se sentir feliz com o recém-nascido. Nem sempre as razões de depressão pós-parto são evidentes. A depressão pós-parto é precedida da tristeza pós-parto.
A depressão pós-parto é, de acordo com Umboh et al.(2023), precedida de uma fase de ajustamento normal caracterizada por sentimentos de labilidade, irritabilidade e ansiedade acerca dos cuidados ao bebé, e até sintomatologia depressiva leve.
Este quadro deve-se a uma desregulação hormonal que acontece previamente ao parto, nomeadamente uma subida anómala do estradiol e da progesterona, que sofrem um declínio abrupto após o parto.
Estas alterações são responsáveis por alterações neuroquímicas de 50 a 75% das mulheres, e produzem alterações do humor durante a primeira semana após o parto (Chechko et al., 2023). A esta fase chama-se Baby Blues, ou tristeza pós parto.
Embora seja comum que este quadro melhore duas semanas após o parto, há casos de Baby Blues que progridem para um quadro depressivo mais grave, a depressão pós-parto propriamente dita. Esta evolução acontece de modo mais significativo em circunstâncias de défice de apoio social e quando existem fatores de risco prévios.
Os fatores de risco que devem ser alvo de intervenção prévia de modo a tratar a tristeza pós-parto e impedir a sua progressão para um quadro depressivo pós-natal mais pervasivo, são os seguintes:
- Ansiedade pré-natal;
- Depressão pré-natal;
- História pregressa de depressão na puérpera;
- Historial familiar de depressão;
- Deficiente apoio instrumental e emocional;
- Gravidez não planeada;
- Experiência de confinamento negativa na gestação.
Assim, um adequado tratamento do chamado Baby Blues carece de intervenção prévia ao parto e visa prevenir o agravamento de um quadro que de outro modo é normativo, mas que nas circunstâncias certas pode degenerar num quadro depressivo pós-parto.
Na avaliação da tristeza pós parto ou Baby Blues, é fundamental avaliar a severidade dos sintomas, bem como aferir da existência de ideação suicida, ideias paranóides ou ideação homicida dirigida ao recém-nascido.
O tratamento dos Baby Blues não é particularmente complexo pois o quadro habitualmente resolve-se por si mesmo. De modo a prevenir a transição para uma síndrome depressiva pós-parto, o tratamento envolve validação da puérpera, educação, tranquilização e apoio psicossocial (Balaram & Marwah, 2023).
A depressão pós-parto é uma das mais vulgares condições clínicas perinatais e tem um impacto significativo não apenas no bem-estar da puérpera, como também no do recém-nascido, podendo ter consequências ao nível do seu desenvolvimento intelectual e emocional, bem como outras complicações a longo prazo (Suryawanshi & Pajai, 2022).
Poderá também ser responsável pelo surgimento de outros quadros psicopatológicos na progenitora, designadamente perturbação obsessivo-compulsiva ou perturbação de ansiedade.
O quadro clínico consiste num estado contínuo de consciência caracterizado por sentimentos de tristeza, baixa auto-estima e desalento. De acordo com muitos estudos, o quadro de depressão pós-parto pode surgir no primeiro mês do puerpério e até ao final do primeiro semestre, embora haja também estudos que reconheçam o seu surgimento até ao primeiro ano de vida do bebé.
Há três tipos de depressão pós parto, para além da depressão pré-parto, que se instala no decurso da gestação e que envolve sintomatologia leve. A depressão pós-parto é um de três tipos de quadros clínicos que se podem instalar no período perinatal. Para além desta, o já referido Baby Blues, cujos sintomas são similares aos da depressão pós-parto e que afeta cerca de 80% das puérperas. O terceiro tipo é a psicose pós-parto, um quadro mais grave, com uma prevalência muito menor, mas que inclui paranóia, ansiedade, agitação, mania, ideação suicida ou homicida e alucinações para causar dano ao bebé.
A sintomatologia da depressão pós-parto é em muito similar à sintomatologia da perturbação depressiva, com a grande exceção de que aquela acontece após o nascimento de um bebé e é habitualmente precedida de sintomatologia mais leve no período perinatal. Os sintomas da depressão pós parto acontecem em concomitância e são (NIHM, 2010):
- Tristeza persistente;
- Dificuldades de concentração;
- Dificuldades de memória;
- Sentimentos de inutilidade e culpa;
- Irritabilidade;
- Anedonia;
- Falta de interesse no auto-cuidado;
- Insónia;
- Hipersonia;
- Falta de apetite ou excesso de apetite;
- Somatizações – dores de cabeça, dores de peito, palpitações, entorpecimento, hiperventilação;
- Défice de vinculação com o bebé;
- Perda de interesse em atividades anteriormente prazerosas;
- Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio.
De acordo com Mughal et al. (2022), a depressão pós-parto acontece em resultado de vários tipos de fatores de risco em várias dimensões da vida da puérpera. São as dimensões de fatores de risco que de seguida se analisam:
Fatores de risco psicológicos:
- Historial e depressão e ansiedade;
- Síndrome pré-menstrual;
- Atitude negativa em relação ao bebé;
- Rejeição do sexo do bebé;
- História de abuso sexual.
Fatores de risco obstétrico:
- Gravidez de risco, que inclui cesariana de emergência e hospitalizações durante a gravidez;
- Passagem de mecônio;
- Prolapso do cordão umbilical;
- Parto prematuro ou de baixo peso;
- Baixa hemoglobina.
Fatores de risco social:
- Falta de apoio social;
- Violência doméstica, sob as formas sexual, física e verbal.
- Hábitos tabágicos na gestação.
Fatores ligados ao estilo de vida:
- Hábitos alimentares;
- Higiene do sono;
- Exercício físico.
Alguns estudos apontam para uma duração da sintomatologia depressiva inferior a um mês numa percentagem significativa de puérperas (Abdelmola et al., 2023). Por outro lado, é sabido que as consequências de uma depressão pós-parto não tratada podem ser duradoras ainda mais para a criança do que para a progenitora (Frieder et al., 2019).
Para a progenitora, a depressão pós-parto sem tratamento pode perdurar meses ou anos. O tratamento deve ser procurado nos casos em que a mãe sinta tristeza ou anedonia durante mais de 2 meses após o parto.
A persistência no tempo da depressão pós-parto está relacionada com certos fatores já mencionados, sendo que estes podem prolongar a sintomatologia para lá de 3 anos após o nascimento do bebé.
Convém ser mencionada ainda a depressão pós-parto tardia, situação em que a sintomatologia não surge no período de periparto, mas sim algum tempo depois, sendo documentados inúmeros casos de aparecimento de sintomas entre dois meses a seis meses depois do parto (Tebeka et al., 2020).
Os tratamentos para a depressão pós-parto podem ser diversos e distintos, estando razoavelmente consolidada junto da comunidade científica e médica a sua eficácia (Gjerdingen, 2003).
As diferentes opções terapêuticas incluem psicoterapia individual ou de grupo e terapia farmacológica antidepressiva conjugadas. Os fármacos paroxetina, sertralina e nortriptilina estão entre os medicamentos antidepressivos mais amplamente estudados para os quais não foram identificados efeitos adversos em lactentes.
Outros tratamentos promissores no tratamento da depressão pós-parto incluem terapia de reposição de estrogénio, visitas domiciliares por profissionais de saúde e psicoterapias de grupo.
Quaisquer que sejam as opções de tratamento, este deverá contemplar a educação da puérpera sobre a doença, sobre o tratamento específico escolhido e sobre outros mecanismos de promoção da saúde, como suporte social e estilos de vidas saudáveis.
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Evidência e fontes
Orientações clínicas selecionadas, pesquisas revisadas por pares e fontes de saúde pública utilizadas neste artigo.
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